267-Retornando ao Clã Mu
- Rafael_Fera
- 1 de fev.
- 6 min de leitura
Qin Yue estava sentada de pernas cruzadas. Sua postura era ereta e impecável, a respiração lenta e controlada.
Se olhasse atentamente, era possível ver o ar se movendo ao redor dela, não apenas se movendo, mas circulando e entrando em seu corpo. Era uma visão bela e calmante.
Desde que Kael fugiu do seu clã, Qin Yue vinha cultivando incansavelmente, com a determinação de ficar mais forte e não ser tão impotente como naquela época. Porém, também havia outro motivo: ela precisava distrair sua mente para evitar pensar no que havia acontecido.
Pela primeira vez em sua vida, Qin Yue desenvolveu sentimentos por alguém. Ela estava se sentindo nas nuvens, e o mundo parecia mais brilhante, mas antes que pudesse aproveitar por muito tempo, a separação aconteceu de forma extremamente abrupta e dolorosa. Ela não estava preparada, não conseguiu se despedir, e esses sentimentos vinham corroendo sua mente.
Felizmente, ela não era uma pessoa comum, sua determinação não era frágil. Qin Yue não se deixou abater completamente; ela transformou essa tristeza e frustração em determinação para se esforçar cada vez mais em seu cultivo, e estava evoluindo de forma constante.
Enquanto Qin Yue completava mais um ciclo de cultivo, passos soaram apressados do lado de fora.
“Senhorita Qin Yue!!” Gritou uma serva ao abrir a porta com um baque.
Qin Yue franziu a sobrancelha e saiu do estado de meditação, lançando um olhar para a serva que estava parada à porta, ofegante.
Normalmente, ninguém invadiria o quarto de um cultivador daquela forma e interromperia seu cultivo. Isso poderia fazer o cultivador perder um momento importante de iluminação ou até mesmo acabar se ferindo.
Mas Qin Yue não ficou brava com as ações da criada. Ela sabia que, para a mesma agir dessa forma, algo sério devia ter acontecido. Na verdade, ela ficou um pouco preocupada; afinal, acabaram de perder uma guerra contra a Academia Celestial. Ninguém sabia o que poderia acontecer, ou se a Academia Celestial enviaria alguém com demandas irracionais para seu clã, ou até mesmo tentaria subjugá-los completamente.
“O que aconteceu?” Questionou ela, com tensão em sua voz.
“Senhorita... o mestre do clã... solicita sua presença...” a criada tentava respirar em meio às palavras.
A sobrancelha de Qin Yue se franziu ainda mais, mas as próximas palavras da criada lançaram um choque em seu corpo.
“O... o... jovem mestre Kael está aqui!” A criada hesitou um pouco, como se não soubesse bem como deveria se referir a Kael.
Mas a mente de Qin Yue já estava em branco. Seu corpo congelou completamente, ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
“O que você disse?” Perguntou, depois de voltar a si, com os olhos brilhando intensamente.
“Senhorita, o jovem mestre Kael chegou e solicitou uma audiência com o mestre do clã, que imediatamente me enviou para avisá-la.”
As palavras mal terminaram, e Qin Yue já havia passado por ela como um borrão.
A criada arregalou os olhos ao ver Qin Yue desaparecer no corredor, mas logo sua expressão voltou ao normal. Ela não ficou muito surpresa com a reação. Na verdade, todo o clã sabia que a relação entre Qin Yue e Kael estava longe de ser simples, mas as criadas que trabalhavam no castelo e passavam mais tempo com Qin Yue estavam ainda mais cientes da situação. Afinal, depois do que aconteceu, sua jovem senhorita havia mudado bastante.
Apesar de Qin Yue sempre ter sido esforçada no cultivo, agora estava em um nível completamente diferente; às vezes, era até doloroso olhar para ela. Sem falar que nunca mais a viram sorrir.
Todas as criadas gostavam muito de Qin Yue e estavam bastante preocupadas com ela. Foi por isso que, ao receber a ordem do mestre do clã, a criada não perdeu tempo e correu desesperadamente para informá-la. Ela não sabia bem o que estava prestes a acontecer, mas torcia para que fosse algo bom para sua senhora.
*
“Jovem mestre Kael, por aqui, por favor!” Outra criada entrou na sala de espera e sinalizou com a mão, mostrando o caminho para Kael, que assentiu e a seguiu em silêncio.
Como a situação da guerra estava resolvida, Kael não perdeu tempo e veio direto para o Clã Mu, mas foi bem cauteloso durante o percurso. Muitas pessoas naquele território o odiavam, pessoas bastante poderosas inclusive. Ninguém sabia do que seriam capazes se soubessem que ele estava ali. Afinal, a Academia Celestial pode ter vencido a guerra, mas ainda não tinha um controle muito grande sobre aquele território enorme. Assumir o controle completamente demandaria bastante tempo e esforço, mas Kael não podia esperar tanto; ele precisava resolver as coisas agora. Ele devia isso a Qin Yue.
Depois de andarem por um tempo, a criada abriu uma porta e sinalizou com a mão novamente, dessa vez em silêncio. Kael assentiu e seguiu em frente; então, a porta se fechou atrás dele.
Quando os olhos de Kael avaliaram a sala, percebeu que havia várias pessoas presentes, vários rostos que ele não conhecia, mas acreditava que fossem os anciões do Clã Mu. Ele não perdeu muito tempo nesses rostos desconhecidos; seus olhos se fixaram nas duas pessoas que estavam bem no centro, no fundo da sala: Qin Shen e Qin Yue.
Os olhos de Qin Yue estavam vermelhos enquanto ela olhava fixamente para ele.
O lugar ficou em completo silêncio. Os olhos de todos na sala estavam presos em Kael. Os anciões mal conseguiam esconder suas apreensões. Afinal, Kael fazia parte do lado vencedor, mas não era só isso. Não era apenas o fato de ele pertencer à Academia Celestial que deixava esses cultivadores idosos e poderosos apreensivos, era a própria pessoa.
Quando a verdadeira identidade de Kael foi descoberta, todos acharam que ele era um homem morto, mas as histórias que se seguiram depois de sua fuga arrepiaram seus cabelos. O jovem solitário atravessou o território enquanto era perseguido pelo Clã Sombra Mortal, não, não apenas pelo Clã Sombra Mortal, mas por todos os clãs do território, enquanto deixava um rastro de carnificina em seu caminho.
Qualquer pessoa em sã consciência acharia difícil acreditar nessas histórias, que todas aquelas coisas tivessem sido feitas por um jovem que ainda nem havia entrado no Reino do Núcleo Espiritual. Diziam que até cultivadores da Alma Nascente caíram por suas mãos; era um completo absurdo.
Mas, por mais que tentassem negar, a cruel realidade batia à sua porta. As testemunhas eram abundantes, relatórios vinham de todos os lados e todos eram semelhantes. Demorou bastante tempo para recolher todos os corpos que foram deixados ao longo do caminho que ele percorreu. Esse garoto era uma máquina de matar, bruto e cruel.
Claro, crueldade e brutalidade não eram incomuns no mundo do cultivo. Sem falar que Kael estava sendo perseguido; se ele hesitasse mesmo que por um instante, provavelmente já estaria morto. Todos entendiam isso perfeitamente e não se importavam nem um pouco, bem, desde que ele não se virasse contra eles, algo que poderia acontecer exatamente agora. O peso da situação existia porque a faca estava pendurada em seus pescoços.
Diante das várias histórias, ninguém ousou subestimar Kael apenas porque estavam em maior número ou porque seus cultivos eram superiores. Todos estavam cautelosos e em alerta máximo, principalmente o primeiro ancião, Bai Zi.
Se os outros anciões estavam nervosos, ele estava muito mais. Afinal, era o único que tinha uma rivalidade com Kael. Bai Zi torcia para que o garoto não descobrisse seu envolvimento no ataque daquela época.
Bai Zi se amaldiçoava internamente por ter se metido com esse monstro e planejava repreender fortemente seus filhos, deixando claro para que não se envolvessem com ele novamente.
Qin Shen também estava um pouco nervoso, mas, diferente dos anciões, ele estava tomado pela expectativa. Kael havia feito um juramento de não prejudicar seu clã, então ele não estava preocupado com essa questão. Sua preocupação era com o relacionamento de Kael e Qin Yue, não apenas pelos benefícios que essa união implicava, mas também pela felicidade de sua filha.
Apesar de acreditar em Kael, uma parte dele, bem lá no fundo, ainda estava com um pouco de medo. Se Kael não tivesse ido ao Clã Mu para restabelecer seu relacionamento com Qin Yue, a garota ficaria arrasada de uma forma que talvez não conseguisse se recuperar, e Qin Shen se sentiria culpado pelo resto de sua vida.
Por isso, ele também encarou Kael em silêncio, sem saber como conduzir a situação.
Qin Yue também olhava para Kael em silêncio. Porém, diferente de seu pai, ela não tinha dúvidas sobre o motivo de ele estar ali. Quando Kael fugiu, deixou algumas palavras, informando sobre sua sinceridade, e também prometeu ao seu pai que voltaria para buscá-la. Qin Yue não duvidava dessas palavras.
Enquanto olhava para Kael, seu coração estava cheio de felicidade e ternura. Ela desejava correr e se jogar em seus braços, mas se conteve. Aquele não era o momento para isso, e muitas coisas precisavam ser resolvidas. Como filha do mestre do clã, ela não podia ser impulsiva.
A severidade no ar era palpável e, depois do que pareceu uma eternidade, foi Kael quem quebrou o silêncio. Seus olhos se desviaram de Qin Yue, voltaram-se para Qin Shen, e ele falou:
“Há quanto tempo, sogro!”

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